Imagina se pudéssemos chegar à vida já com um manual de instrução. Seria extraordinário se já pudéssemos viver sóbrios sem ter que esperar pela sabedoria que só chega na maturidade.

Hoje eu senti saudade da menina que eu era. Não a saudade romântica, mas aquela que aparece como uma pressão que sobe do estômago até a garganta.

Desejei voltar aos dias de criança com a consciência dos meus 39 anos. Desejei poder instruir aquela criança a estar presente na sua infância para aproveitar a fase em que a família ainda é o lugar mais quente.

A criança com o manual saberia que aquela é a última oportunidade de glorificação dos pais antes da consciência. Da consciência das expectativas. Da consciência dos traumas e suas dores.

Para muitos de nós, a vida faz um arco que dói antes de fazer sentido.

Tudo começa na infância, pura conexão, zero ansiedade. Da adolescência até o início da vida adulta, as fraturas na conexão começam a aparecer, um certo distanciamento físico e emocional para fugir dos gatilhos, mas talvez ainda sem total compreensão.

Durante a fase adulta, ao redor dos 30 anos, a intelectualização dos traumas, o entendimento de como corpo e mente criaram padrões de proteção que só causam dor, ansiedade e depressão. A dor que vem de casa só gera mais dor. Angústia, raiva e mais distanciamento.

Em seguida, vem a culpa. A culpa de sentir essa raiva. A culpa de não conseguir estar mais perto. Ou seja, depois da dor… tem mais dor.

Parece não haver cura, não haver luz no fim do túnel.

Mas é preciso caminhar pelo caminho da dor, da mágoa e, principalmente, do luto. O luto pelo que os pais não foram, pela segurança e pelo calor que você não recebeu quando precisou, pelo julgamento que veio de casa antes mesmo de você se sentir seguro para caminhar sobre os próprios pés e seguir pelo mundo. E, assim como a casa, o mundo te pareceu tão inseguro…

É através da dor que a cura parece possível. É a integração do que foi reprimido e a compreensão emocional de que a gente sobreviveu à falta, que a gente conseguiu seguir apesar de…

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente.”

– Clarice Lispector, Um Aprendizado ou O Livro dos Prazeres

Como sobreviventes, a gente chega ao entendimento de que nos foi dado o que era possível, sendo os nossos pais reféns de seus próprios traumas, que seguem vivendo apesar de suas próprias dores.

A empatia, a compaixão e o amor, então, retornam. E sem a glorificação infantil dos pais, a gente os ama e os perdoa e se perdoa.

E aceita.

D e v a g a r…

E cura.

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